A colheita brasileira de grãos na temporada 2026/27 tem projeção de superar o volume total de armazenagem do país em cerca de 133 milhões de toneladas. Conforme dados da Companhia Nacional de Abastecimento (Conab) e do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), a expectativa é colher 366,6 milhões de toneladas frente a uma capacidade estática de apenas 233,8 milhões de toneladas nos armazéns nacionais.
O impacto do déficit na renda do produtor
Essa infraestrutura atual atende somente 64% da colheita estimada, evidenciando um entrave histórico para o agronegócio nacional. Enquanto a produtividade agrícola dispara, a construção de silos nas propriedades e nas novas fronteiras agrícolas caminha em ritmo lento.
A carência de espaço próprio retira do agricultor o poder de barganha no mercado. Sem locais adequados, muitos precisam escoar a colheita imediatamente, gerando excesso de oferta simultânea, disparada na demanda por transporte rodoviário e queda acentuada nos preços e fretes.
Isan Rezende, presidente do Instituto do Agronegócio (IA) e da Federação dos Engenheiros Agrônomos de Mato Grosso (Feagro-MT), aponta que o obstáculo ultrapassa a barreira logística e impacta diretamente o lucro no campo.
“Produzir uma safra recorde é uma conquista, mas o produtor precisa ter condições de transformar esse volume em renda. Sem armazenagem, ele perde liberdade para decidir quando vender e pode ser obrigado a negociar justamente no período de maior oferta, quando os preços tendem a estar mais pressionados”, afirma Rezende.
“Um silo dentro da propriedade não serve apenas para guardar grãos. Ele permite preservar a qualidade, reduzir perdas, organizar o transporte e esperar uma condição comercial mais favorable. Em uma atividade de margens cada vez mais estreitas, essa capacidade de decisão pode determinar o resultado de toda a safra”, acrescenta.
Crescimento lento da infraestrutura rural
O sistema de armazenagem do país avançou 1,1% no segundo semestre de 2025, atingindo 233,8 milhões de toneladas distribuídas em 9.668 estabelecimentos agrícolas. Contudo, esse índice fica abaixo do volume colhido: a safra 2025/26 alcançou 361,7 milhões de toneladas, enquanto o ciclo 2026/27 injetará mais 4,9 milhões de toneladas no mercado.
Especialistas ressaltam que o saldo negativo não significa perda física total dos grãos, visto que as estruturas recebem rotação de cargas ao longo do ano e os calendários de colheita divergem. Ainda assim, o volume escancara a vulnerabilidade logística nos picos de safra e a distribuição desigual das unidades pelo território.
De acordo com Rezende, superar esse cenário requer crédito de longo prazo, planejamento e prazos condizentes com o retorno financeiro. “O Brasil não pode continuar ampliando a produção sem fazer o mesmo esforço na infraestrutura. A armazenagem precisa ser tratada como parte do sistema produtivo, porque o gargalo acaba transferindo custos, riscos e perdas para quem está no campo”, diz.
Desafios logísticos e gargalos regionais
Nas áreas de expansão recente, onde a construção de silos não acompanhou o boom produtivo, os fretes encarecem devido às longas distâncias até os armazéns, gerando filas e queima de combustíveis.
O acúmulo de veículos e a disputa simultânea entre milho e soja afetam cooperativas, indústrias, tradings e portos. Investir em silos nas fazendas ajudaria a escalonar o fluxo de mercadorias, aliviando o tráfego nas rodovias e preservando a qualidade dos lotes.
O grande teste da safra 2026/27 exigirá mais do que apenas recordes de produtividade, demandando soluções logísticas e comerciais para converter 366,6 milhões de toneladas em ganhos reais para o campo.










